“Ser mãe não é fácil. É que Ser Mãe é tão difícil”
Aos 21 anos tudo mudou na vida de Sara. Deixou de ser “aquela miúda de 21 anos” para estar grávida. Ainda estudante, a viver numa cidade que não era aquela onde cresceu, uma cidade longe da família, para ser mãe. Não era ali, não era “agora”. “Estava a acabar a faculdade. Estava tudo engatado.” A vida acabou por ficar em ponto morto. A menstruação atrasou. Fez um teste de gravidez. Positivo. “Quando fiz o primeiro teste pensei logo: não é possível. Não estou.” Fez um segundo: negativo. Não repetiu mais.
Umas semanas passaram e voltou a fazer o teste, de novo positivo. “Pensei um milhão de coisas.” Equacionou tudo. “Não tinha condições. Não estava nos meus planos.”“Eu demorei tanto a admitir. A pensar: deixa lá ver o que é que eu vou fazer”. Foi contando ao namorado na altura que estava com a menstruação atrasada. Foram falando. Ao segundo teste de gravidez positivo – não ao primeiro – disse-lhe o resultado. “Ele reagiu mais ou menos como eu. Eu tinha 21 anos, ele também tinha 21. Se eu era imatura, ele era 50 vezes mais do que eu.”
Na cabeça de Sara, os nós tornavam-se cada vez mais apertados. Eram demasiadas as pontas soltas. “Tive sempre aquela esperança de: isto não vai acontecer comigo.” A gravidez não lhe era uma coisa estranha. A mãe teve sete filhos – Sara foi a quinta –, a irmã mais velha já tinha tido filhos. “Eu era uma pessoa bem informada, mas sei lá, acho que andei a mentir o tempo todo, a dizer: isto não me pode estar a acontecer.”
“A gravidez é uma coisa violenta fisicamente, transforma-te tudo. No nosso corpo muda tudo. O corpo muda todo. No pós-parto, o teu corpo está todo diferente, a tua cabeça está diferente, o teu foco é diferente. Não podes ser a mesma pessoa”
O corpo já dava sinais – a barriga já tinha começado a crescer, estava enjoada. Mas Sara só assumiu que estava grávida aos três meses, altura em que fez uma ecografia numa ida às urgências do hospital com dores – “umas contrações estranhas”. Até lá, nunca assumiu que estava grávida nem para si própria. Desejou, nalgum momento, perder naturalmente o feto. “Se calhar, se tivesse acontecido, eu ia sofrer muito mais do que na realidade sofri, porque depois a coisa correu bem.”
“Quando fui para o hospital e fiz a ecografia, o médico pressentiu. Quis que olhasse para a ecografia – olhe para aqui, acho que é um rapazinho –, falou em pezinhos… Eu nem sei se, de facto, se viam pés, porque não olhei. Eu não conseguia olhar. Mas a verdade é que quando saí pensei: tenho mesmo aqui um bebé, vai acontecer. Foi nessa altura que admiti.”
Depois de meter na cabeça que, de facto, tinha ali um bebé, assumi de corpo e alma. Nunca olhei para trás a pensar: e se não tivesse acontecido?
A gravidez não foi fácil. Primeiro porque a omitiu – e “esconder uma gravidez não é uma coisa fácil”. Depois, porque esteve enjoada a maior parte dos primeiros quatro meses. “Houve um dia em que tive de mandar parar um autocarro para vomitar.” Estava a fazer o estágio “numa escola problemática”, a terminar o curso de Ação Social, e, ao mesmo tempo, a trabalhar num call center. “Não vivi a gravidez num estado pleno de descanso. E fisicamente também não foi agradável. Há uma série de coisas a acontecer, mesmo em termos de humor. Estava muito cansada.”
“Não foi uma gravidez feliz e plena. E eu acho que, de facto, quando a gravidez é vivida em pleno, é possível ser boa. Mas a minha não foi”
“Não acompanhei a gravidez. Não fiz os exames necessários”, até aos quatro meses, quando contou aos pais. “A reação da minha mãe foi uma reação natural. Disse-me: não era isto que querias para a tua vida. Sabia quais eram os meus sonhos e esta gravidez não estava dentro dos meus sonhos. O meu pai ficou um bocadinho ainda mais incomodado. Não foi uma coisa fácil, porque eu estava a estudar, porque era muito nova. Mas senti-me apoiada.”
A mãe de Sara teve sete filhos. As primeiras quatro gravidezes foram pensadas, conta. A partir da quinta gravidez, curiosamente a de Sara, não foram planeadas. “Temos um problema de excesso de fertilidade na família (risos).”
A minha mãe era a melhor pessoa para me dizer: isto vai correr tudo bem e os filhos criam-se. E é verdade. Está aí para provar um jovem adolescente-adulto de 25 anos
“Quando contei que estava grávida não me disse, mas na semana seguinte a minha mãe teve o cuidado de dizer: vai correr tudo bem e nós estamos aqui e o que for preciso nós ajudamos. Os filhos criam-se. E [a minha mãe] era a melhor pessoa para que me dizer, que tem sete filhos e criou-os a todos. Com alguma dificuldade.” Os pais de Sara estavam a viver numa zona em guerra, tinham quatro filhos e tiveram de fugir de Moçambique para a África do Sul antes de regressarem a Portugal, meses antes do nascimento de Sara.
Os nove meses de gravidez de Sara passaram. Terminou o estágio, fez a apresentação final do curso, cumpriu o contrato de trabalho até ao último dia. “O meu filho nasceu num domingo e eu deixei de trabalhar na sexta-feira anterior. Acho que consegui porque tinha 21 anos e aos 21 nós conseguimos coisas porque o nosso corpo ainda nos permite fazer isso. Porque eu andava a correr, andava de transporte de um lado para outro.” Durante a gravidez, não sentiu o julgamento de colegas, de professores – “porque acho que não estava preocupada com isso”. “Estava preocupada em como ia gerir as minhas aulas, o meu estágio, o meu trabalho. Eu precisava daquele trabalho. Ainda precisava mais grávida!”
Não teve muito tempo para pensar. Sentiu-se envergonhada, “sem ser preciso os outros fazerem-me sentir isso”. “Senti por mim.” Não por estar grávida. Mas por se considerar uma pessoa informada para ter engravidado. “É daquelas coisas parvas. Acontece aos outros, claro que também me podia ter acontecido a mim”. Até porque Sara tomava a pílula. “Houve um dia qualquer que a pílula caiu e eu, em vez de ir procurar, facilitei. Foi uma parvoíce. E eu senti-me envergonhada por isso. Como é que eu deixei que isto acontecesse? Ninguém me fez sentir assim, fui eu que me fiz sentir assim.”
“Ter tempo para estudar, ter isto na cabeça – porque eu acho que o maior problema não era tudo o que tinha para fazer, era a cabeça. Como é que eu vou gerir isto e o que é que eu vou fazer a seguir… Por muito que haja uma estrutura familiar, não é a mesma coisa”
O parto foi induzido, sem epidural – “na altura, naquele hospital não davam epidural”. Mas Sara não estava nervosa nem preocupada. “As histórias que eu tinha à minha volta eram todas de uma gravidez bem-sucedida. A minha mãe teve os sete filhos de parto normal. A minha irmã teve filhos de parto normal. Não tinha amigas ainda que tivessem filhos, portanto, eu não tinha informação de coisas que podiam correr mal. Eu só tinha informação de uma pessoa que está grávida, tem um filho e corre tudo bem e pronto”. Com os seus 21 anos, Sara confessa que não pensou em muitos assuntos. “As minhas irmãs não tinham levado epidural. A minha mãe não levou. Não era nenhuma questão. E então foi sem epidural e as contrações foram muito dolorosas.”
Na sala de partos, Sara ouvia pessoas a gritar, mulheres a gritar. “Lembro-me de ouvir a doutora que me fez parto e lá de vez em quando vinha e dizia-me: está tudo bem, não gaste força, precisa de guardar força para si, guarde toda a força que tem”. O parto, em si, foi rápido, “nada doloroso”
Eu, de repente, tinha 21 anos que pareciam que eram 30 e o pai [do filho] continuou a ter 21 anos. Porque, na realidade, nós [mães] somos obrigadas a crescer. Não há hipótese
“Tu [como mãe] percebes que tens responsabilidade sobre o bebé, sobre tudo o que está a acontecer. Porque é físico, é biológico. Esses nove meses que o bebé andou ali na barriga faz com que uma mãe tenha de se habituar. Tu és obrigada a habituar-te. Não há como ignorar. E quando assumimos essa responsabilidade toda, o outro lado não sente essa necessidade. Ainda por cima sendo tão novo. Não sentiu esse peso. Na realidade eu cresci, ele não cresceu.” O filho tinha seis meses quando se separaram – “ótimo pai, ainda hoje é presente, mas na realidade ele vivia numa ponta do país e eu vivia noutra”.
Aos 34, Sara voltou a ser mãe. “Nunca mais pensei em ter filhos, tive relacionamentos no meio e nunca tive vontade de ter filhos. E, na realidade, neste relacionamento, sim. Disse-me que queria ser pai ainda novo e eu pensei: porque não, sim, eu gostava de ter mais filhos.”. Foi uma gravidez desejada e planeada.
Não tinha propriamente problemas financeiros, não precisava de me preocupar como é que vou pagar o leite da criança, como é que vou pagar as fraldas
Sara diz que não há comparação nenhuma entre as duas gravidezes. A segunda foi vivida numa altura em que tinha a vida muito estabelecida. Foi uma gravidez pacífica, vivida em pleno, sem enjoos, sem nervosismo, mas com mais preocupações daquelas de grávida que não teve tempo de ter na primeira – “Quanto mais informação tu tens, mais histórias ouves…”
Apesar de ter vivido esta segunda gravidez “mais descansada e partilhada assim que soube que estava grávida”, conta que o parto foi mais difícil, “porque foi uma cesariana”. Mas não só…
“É engraçado porque todo o resto, eu costumo dizer, para mim, toda a parte da educação e da criação foi mais fácil a primeira do que esta. A gravidez não, a criação sim. Porque foi uma criação individual. Na realidade, a responsabilidade é toda tua, tu tens esse peso, mas também tens essa coisa do: eu digo não é não, eu digo sim é sim. Não há discussão (risos). Não há aquela coisa de fazerem birras. Portanto, a criação até foi mais fácil na primeira gravidez.”
“Não usufrui da gravidez como podia ter usufruído e como acho que uma gravidez deve ser vivida. Eu usufrui do meu filho muito mais tarde. Mais tarde. Em paz. Eu e ele. Usufrui dele assim mais…”
Se não tivesse tido o primeiro filho, como é que Sara imaginaria que teria sido o seu percurso? “Nunca pensei nisso. Não consigo imaginar. Não consigo imaginar um mundo paralelo. Não me arrependo de nada. Teria sido diferente. Isso não tenho dúvida nenhuma, a minha vida, mas não me arrependo nada de nada. Mesmo.”
O que diria a alguém com 21 anos e um filho? “Vou dizer exatamente o que a minha mãe me disse: eles criam-se, eles criam-se mais para a esquerda, mais para a direita, com algum custo. Eles criam-se e tu consegues fazer um bom trabalho. Relaxa, porque eu acho que tem muito a ver com isso, com a nossa capacidade de relaxarmos na vida, sabes? De te deixar ir.”
No tempo certo, Sara foi mãe. Quis sê-lo. Há mulheres que não querem, “que não sentem vontade nenhuma de ser” e mulheres que não têm filhos mas que gostavam de ter sido mães. “É uma decisão. Ser mãe não é fácil. É que Ser Mãe é tão difícil.”

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Quelle: Meu Verso
